terça-feira, 19 de abril de 2016

Desnudando o golpe [ou o “impeachment”, como preferem os golpistas]

Em nome de Deus, dos meus filhos, das minhas netas, do coronel Ustra, pelas forças armadas, pela paz em Jerusalém, o meu voto é ‘sim’.

Houve de tudo no histórico domingo, 17 de abril. Quase nada sobre crimes de responsabilidade, os únicos, segundo a lei, a destituírem uma presidente do seu cargo. Estranho, uma vez que Dilma Rousseff, eleita em pleito direto, está como ré de um processo de impeachment. Este é, de fato, um dispositivo constitucional e, portanto, democrático e republicano. Mas se não se menciona crime quando a ocasião é propícia, crime não há. E se o argumento pelo “sim” não carrega no seu núcleo a denúncia de um desvio, o processo não é de impeachment: é de golpe.

Dilma botou o dedo em Furnas. Cunha emburrou e ficou de mal da presidente.
[Foto: www.blogs.oglobo.globo.com]
O que determina a instauração, o andamento e o julgamento final não são decisões equivocadas de uma gestão – ainda que delas devam surgir cobranças e indignações. A Constituição [Art. 85 e 86] e a Leinº 1079/50 são claras quanto a relacionarem o impedimento a crimes de responsabilidade. O desemprego, o corte de investimentos na educação, a inflação e todas as demais deficiências de ordem socioeconômicas são preocupantes, mas não caracterizam crimes. A gestão de Dilma é questionável. O seu mandato, não.

Mas o congresso deu tudo de ombros. Nada que surpreendesse. O mais reacionário dos nossos últimos parlamentos, a geração mais criminosa que tomou as bancadas legislativas agiu como dela se espera: com o deboche e a hipocrisia que lhe são peculiares. No domingo [17], uma deputada, ao votar “sim”, vociferou moralismos e usou o nome do marido como exemplo de político. Na segunda [18], quase antes que o galo cantasse, viu o nobre esposo, prefeito de Montes Claros [MG], ser preso. Outra vez, nada fora da curva. Foi sempre dessa forma que a nossa classe dominante se comportou, criminalizando a mulher, os homossexuais, os negros, os pobres, mesmo tendo o próprio quintal imundo. Com raras exceções, o que se viu ali foi o reduto do machismo, da homofobia, do racismo. Fico a pensar: um congresso tão monstruoso surge de uma política carente de reforma ou temos ali o retrato perfeito do que é a sociedade brasileira hoje?

O meu marido deve ser preso porque é corrupto? "Sim, sim, sim, sim, sim, sim!"

Um congresso que teima em botar o nome de Deus em meio às decisões políticas sugere não saber a sua devida finalidade – nem a do congresso, nem a de Deus. O que carece aos representantes que assim o fazem é o trivial: entender que a laicidade fundamenta o Estado, que a polis é deliberada pelas condutas racionais, e não místicas, míticas, alegóricas, fantasiosas. Os espaços de cultos e rituais devem ser assegurados com base nas liberdades religiosas consagradas no Art. 5º, Inciso VI da Constituição. Todavia, Deus, Cristo, Maomé, Alá, Buda ou qualquer outro personagem religioso, ao menos numa República, não ditam os rumos da coletividade. A fé compete à intimidade de cada um. Inclusive é dado, a quem desejar, o direito de rechaçá-la. Num país de crenças diversas como o nosso, eleger uma como oficial é o riscar do fósforo para fazer do Estado um perseguidor, um inquisidor. Nos dias que correm, o exemplo do vínculo entre fé e política é o Estado Islâmico [EI]. Parece-me ponto pacífico que o EI não traz qualquer contribuição à vida de quem quer que seja. A maioria entre os próprios muçulmanos atesta isso.

Não é tão difícil ver o que se passa. Tarefa árdua é um golpista aceitar. Porque o golpista sabe que Eduardo Cunha [PMDB/RJ], presidente da Câmara, está em maus lençóis. Ele sabe disso. Mas o golpista é, por excelência, um pragmático, maquiavélico: em benefício de um fim, tomado pelo ódio ideológico, ele é capaz de qualquer artimanha. “Dilma deve sair do poder. O PT deve ser extirpado”. Para isso, vale ter Cunha no jogo, o primeiro e único, entre a gente graúda de foro privilegiado, a ser réu na Lava Jato. Não, ele não é um mero suspeito ou investigado. Ele será julgado no STF e, provavelmente, enquadrado. O golpista olha Cunha no centro da mesa diretora da Câmara, fazendo a bola rolar numa das maiores decisões que pode haver no regime republicano e democrático, e está convencido de que ali há um contraventor. O golpista tem noção de tudo isso. Mas, pra ele, golpista, assim como o deputado que legitima, vale tudo pela meta.

O golpista sabe que Temer é traidor e sabotador. Ele sabe que, se o partido rompeu com o Planalto, o seu compromisso moral deveria ser o mesmo: sair da vice-presidência. Não é ilícito permanecer, mas é de uma incoerência abissal. Da cadeira de vice, já projeta o governo que cairá no seu colo. Porém exigir coerência de Temer, do PMDB e de um golpista, é pedir demais. Fiquemos no que é superficial, no degrau raso e baixo que o golpista consegue pisar. Do segundo andar pra cima, tudo fica turvo.

"Nada é impossível de mudar". Poema do teatrólogo alemão Bertolt Brecht, narrado por Antonio Abujanra

O golpista sabe: o movimento que tanto apoia e do qual é manifestante nasceu maculado, e isso implica a contaminação de tudo o que está por vir. Ainda que Dilma não sofra cassação no senado, o golpista estará com o “G” do ferrete cravado na testa, já que defendeu um processo pelos esgotos das vias legais. O resultado pode ser um ou outro, mas se a concepção está envenenada, envenenado o resto estará. O golpista é sabedor de que tudo isso está posto. Ele só não está habilitado a compreender, numa reflexão mais ampla, a mediania entre o que se critica e os caminhos do combate ao que não está bom.

Mas o golpista planta a sua reivindicação numa terra, cujo adubo é a ignorância, a alienação, o ufanismo. Na sua conta, só cabe o “fora, Dilma. E leve o PT junto”. Slogan dos oposicionistas nas eleições de 2014, está aí a comprovação de que o que ocorreu anteontem foi, de fato, o 3º turno. O PSDB, habituado às derrotas na disputa honesta, conseguiu vencer da única maneira que lhe era viável: no tapetão, na mão grande, nas tramoias subterrâneas em conluio com os conspiradores do PMDB. O movimento, liderado por Temer e Aécio, tem em Eduardo Cunha o seu testa de ferro. O presidente da Câmara é um gângster. Mas há que se admitir: ao contrário do vice traidor e do mineiro mal perdedor, nunca escondeu quem é.

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O golpista tem noção de que o governo corre riscos em várias frentes. O TSE está em vias de comprovar que a chapa Dilma-Temer, assim como a de Aécio-Aloysio, recebeu verba proveniente de obras superfaturadas da Petrobrás. E isso seria inapelável. Neste caso, a presidente e o vice decorativo seriam cassados e, em acontecendo neste 2016, novas eleições são convocadas. Se a anulação vier em 2017, eleições indiretas, pela voz do congresso combalido, infinitamente mais criminoso que Dilma, sobre a qual, é importante sempre lembrar, não paira qualquer crime. O golpista tem isso em mente, mas não importa. Se é o túnel mais curto que o leva ao outro lado da montanha, é por ali que tudo deve ocorrer, ainda que o túnel seja de areia, e, frágil que é, um dia verá escancarado o seu pecado original. Mas o golpista é assim: pensamento tacanho, visão de baixo alcance, o tipo que acha que o amor é monopólio das relações heterossexuais.

O golpista, vencedor de um jogo impuro, se veste com o uniforme da CBF. Simbólico! O time que, também em 2014, foi humilhado por 7x1, tem no golpista o seu maior torcedor. No germe do golpe, materializado pelo seu porta-bandeira, está a derrota, tudo em plena sintonia num movimento que tem no conservadorismo, no retrocesso e no reacionarismo os seus alicerces. Combater a podridão no reino da Dinamarca com estratégias fétidas não dignifica a causa. Pelo contrário: contamina a ideia no nascedouro.

Patinho feio na última Copa, a seleção brasileira protagonizou o maior vexame da história do futebol
[Foto: www.jcrs.uol.com.br]
O golpista tem em Sérgio Moro o seu baluarte. Antes dele, outros tantos: Aécio, Cunha, o japonês da PF. O adepto do impeachment suspeito é consciente de que o juiz admitiu grampos feitos além do horário autorizado por ele mesmo, tomando-os como provas. Mais que isso, desprezou a legislação e botou no balaio da justiça de 1ª instância gente que não compete a ela. E veio a cartada final: liberou à imprensa peça de alto interesse jurídico – e, assim, sigiloso –, horas depois de interceptada. Pelo puro espetáculo, Moro jogou pra galera. Preferiu incriminar alguém cometendo uma sucessão de delitos. Duas semanas depois, pediu “respeitosas escusas” ao STF e fez o que deveria ter feito no início: enviou os áudios envolvendo personagens de foro privilegiado à Suprema Corte. O juiz, por uma daquelas ironias do destino, assinou o atestado de réu confesso. O golpista viu tudo isso, no fundo sabe que Moro fez uso de expedientes de exceção, mas a obra messiânica de livrar o Brasil do comunismo não deve ser interrompida. Afinal, o país não pode se transformar numa nova Venezuela, Cuba ou Bolívia.

O golpista sabe que a TV Globo e a revista Veja são seus porta-vozes. Ele não tem a menor dúvida de que a grande imprensa faz o trabalho sujo no âmbito simbólico e percebe que, às portas da saída da presidente, o noticiário sobre a Lava Jato – não sem conveniências – já vai minguando. Ele não é suficientemente alienado para não perceber que o governo, em verdade, está até a tampa de movimentações reprováveis, entretanto é sabedor de que o jornalismo de maior projeção fez um trabalho seletivo, a ponto de ignorar o que de positivo o governo executou e os vícios da oposição. Por parte desta, da mídia e do golpista não há indignação contra a corrupção. O problema, definitivamente, é o PT. E o golpista, de intelecto limitado, bate o pé no chão, faz birrinha, chia. Tal como a criança que tira a bola do jogo porque não foi escolhida por nenhum dos dois times e vai embora aos prantos chorar as mágoas no colo da mamãe, o golpista faz escarcéu por Lula e Dilma... e mais ninguém.

Ouvi e li que os professores de História terão dificuldade de explicar, lá na frente, tudo o que está acontecendo. Não terão. É tudo muito simples, claro e, por isso, deslavado, sem qualquer pudor. De igual modo, é papel dos cursos de Jornalismo entender e detalhar para os postulantes a profissionais da imprensa como se deu – ora oculto, ora escancarado – o trabalho da mídia em dias de marcha à ré. A psiquiatria não encontrará empecilhos para traduzir a esquizofrenia de se falar em Deus no âmbito da polis, de se ter um criminoso como chefe do julgamento. A dramaturgia não se furtará em esmiuçar a farsa. A ciência política saberá facilmente detalhar as mancomunações de Temer e Aécio, a desfaçatez de Cunha, a obsolescência de Bolsonaro e Feliciano, todos capitaneando, com vozes impolutas, uma ação desavergonhada.

Quando alguém, a discordar de isso tudo, perguntar-se “devo seguir o enjoo?”, mesmo em tarefa árdua, a despeito de ser feia, sem pétalas, sem cor, a flor é capaz de furar o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio. No chão duro e estéril, da improbabilidade de se ter vida, um regalo de esperança que faz a roda não emperrar.

O nojo e a esperança de Drummond

A democracia está tombada. Mas ela sabe se reinventar, é capaz de agregar personagens que fortalecem a causa e pode, como é do seu feitio, resistir às aberrações que aqui e acolá tentam conduzir o Brasil “ao que não tem decência, nem nunca terá; ao que não tem vergonha, nem nunca terá”. Porque quando a roda-viva chegar e carregar o destino, a viola e a saudade pra lá, haverá sempre alguém, com viola na rua, a cantar: “a gente vai contra a corrente até não poder resistir e quem inventou a tristeza terá de ter a fineza de desinventar”.

E depois que tudo passar e que der a sensação de que a onda retrógrada triunfou, de que os democratas estão alijados, à margem da ciência sobre o que de fato acontece, os dados ainda estarão a rolar, porque o tempo, as coisas e as gentes estão aí, diligentes e engajados, em prontidão para redimir a história.