segunda-feira, 23 de julho de 2012

ANTES DE FALAR DE AMOR, EÇA DE QUEIROZ CONTOU SOBRE TRAGÉDIAS

É que a maioria gosta de bater em bêbado, mas afirmar que só o SBT não tem programas com horários fixos é injusto. Mesmo em menor quantidade, às vezes a Globo não perde a oportunidade de esticar a Avenida Brasil aqui, o Jornal Nacional ali, o futebol da quarta-feira acolá. Não arrisque programar uma gravação: não faltará fita ou HD no seu receptor, mas o conteúdo todo também não estará lá.

Quem sofre com a síndrome dos minutos a mais no espaço do programa seguinte é Gabriela, a novela do horário das 23 horas, da TV Globo. Devido às cenas de nudez e sexo e linguagem com uma ou outra palavra mais ofensiva, a atração vai para o fim do dia. Como vai para o fim do dia também todas as obras ricas da emissora, normalmente os melhores programas. Gabriela pode não ser uma obra-prima como Os Maias, mas é atualmente o melhor que a emissora pode oferecer no gênero da teledramaturgia.

A atração mostra o que era a Bahia da década de 20, mais especificamente a cidade de Ilhéus, e, por que não, o Brasil de antes. Sociedade machista, moralista e hipócrita, em que as próprias mulheres se resignavam com as situações que lhe eram impostas, especialmente no amor. Jorge Amado – e o programa consegue explorar isso – expõe ao público que a política era dirigida pelo voto de cabresto e a Igreja tinha ideia de sobra e ação em falta. Trair a mulher com putas, atitude até sadia. Mas a mulher que pensasse em enganar o marido, um absurdo. Tal mentalidade se arrasta ainda hoje.


Mas a novela peca em três pontos. Embora a obra não traga uma protagonista expressiva no que diz respeito às suas falas, é de se espantar o fato de a mesma não fazer falta à trama, no caso específico da personagem encenada por Juliana Paes. A história entre ela e o parceiro não caminha, e enquanto o fato novo não vier, as histórias periféricas serão mais atrativas.

Outra aresta mal aparada versa sobre o roteiro. Como a quantidade de histórias paralelas é grande e a atuação dos atores também é um ponto forte, acontece de algumas começarem e só continuarem dias depois, o que, convenhamos, é depor contra a cadência do enredo. Ao chamar a atenção dos telespectadores para alguns desníveis é uma forma de diminuir o que a atração tem de melhor.

O terceiro deslize da novela é com relação a uma das obras célebres de Eça de Queiroz, O crime do padre Amaro. Em Gabriela, o romance do escritor português é trazido à tona pela personagem Malvina, interpretada por Vanessa Giácomo. A garota, com perfil revoltado e revolucionário aos padrões da época, encarna a mulher que anseia romper os paradigmas e estereótipos: não aceita a passividade feminina em questões de vestimenta e relacionamentos. Aparentemente algo normal, mas o curioso é que a essência da história é posta de início e abandonada no decorrer da trama. A própria personagem, rebelde e denuncista como a obra de Eça, passa a se referir erroneamente ao livro como um material que “retrata uma linda história de amor”. Tenhamos calma.

Eça de Queiroz, dos mais importantes escritores da literatura portuguesa, pertence ao Realismo. Como característica dessa escola, temos a realidade como ela é, ao contrário das alegorias, do “felizes para sempre” ou do apaixonado morrendo pelo amor não correspondido do Romantismo. Relativo ao período, Eça de Queiroz é para Portugal o que Machado de Assis é para o Brasil. Histórias com vírgulas, sem ilusões, que denunciam as tragédias humana e institucional.


O crime do padre Amaro não apresenta uma bela história de amor. O autor de O primo Basílio e Os Maias nos mostra o homem nas suas entranhas mais desprezíveis e um pessimismo em relação a qualquer perspectiva minimamente boa.

Na história, o sacerdote se aproveita de uma menor de idade (Amélia) e quando a menina engravida, o padre entrega o próprio filho a alguém a quem se paga para exterminar recém-nascidos, tudo em função de manter a própria imagem intocada. Resultado: o bebê morre, a mãe segue o mesmo rumo, após complicações do parto, e o padre sai triunfante. Isso tudo porque Eça tinha um apreço todo especial pela igreja...


Gabriela é uma história e tanto, que se incumbe das regionalidades, de um Brasil atrasado e tem em sua versão televisiva, em formato de novela, atuações imponentes de Antonio Fagundes (coronel Ramiro Bastos), José Wilker (coronel Jesuíno Mendonça), Mateus Solano (Mundinho Falcão), Marcelo Serrado (Tonico Bastos), Anderson di Rizzi (professor Josué) e Laura Cardoso (dona Dorotéia). Mas tropeça em pontos importantes e ofende a literatura e Eça de Queiroz quando atribui à sua obra um mote equivocado.

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