terça-feira, 10 de julho de 2012

“EM SEU LOUVOR HEI DE ESPALHAR MEU CANTO”

O óbvio seria falar sobre mães. Mas como quase todos, eu só tenho uma, e o texto ficaria limitado a falar só dela, já que seria pressupor demais discorrer sobre o todo materno. Melhor escrever sobre as mulheres, aquelas que são mães, que serão, que já foram, que poderiam ter sido ou que tiveram filhos, mas nunca foram. Aquela com a qual nos relacionamos mesmo antes de habitar este mundo, as protagonistas do mais incrível milagre. Seja como marido, filho ou irmão, seja cunhado, sogro ou genro, haverá, há ou houve alguma mulher que certamente não passou despercebida por você. Porque elas jamais passam, meramente.
        Comecemos pelo princípio. A mulher é ponto de discórdia desde os primeiros dias da existência humana. E acabou nas suas costas uma culpa que não fora só dela. O pecado recriminado por Deus e por nós, hipócritas de sempre, teve como fundamento a fraqueza do homem e a maldade da serpente. Enfim, dividir a culpa em três é o mais justo, e o Senhor sabe muito bem disso. Mas como para a humanidade é sempre mais cômodo eleger um vilão, eis que a mulher entrou para a história por ser a primeira, e até pouco tempo atrás sofria os efeitos disso, graças à nossa falta de bom senso e à ignorância de Estado e Igreja.
            À parte essas questões institucionais e históricas, temos a mulher em seus traços mais abstratos, com toda a imprevisibilidade, complexidade, intensidade e o fato de serem imprescindíveis aqui e acolá, ontem e sempre. Se assim não fosse, Chico, Tom e Vinícius teriam dito tudo. Embora dissessem muito, pouco se tem sobre elas, posto que poesia alguma é suficiente para contemplar a totalidade dessas criaturas amáveis, valentes e temidas pelos homens que prezam pela sua macheza. A mulher é tudo isso, não é só isso e, portanto, a queremos com empenho e paixão.



            É evidente que esteticamente é mais sedutora que o homem. Ao colocar lado a lado, completamente nus, o corpo de uma mulher e de um homem, de mesma altura, peso e envergadura, adivinhe qual será o mais belo. Sim, as curvas empolgantes e tentadoras são capazes de ferir os corações nossos, fazer-nos perder o juízo, colocar-nos de joelhos. É fatal ao homem e à outra mulher também, que se coça, atenta, a encontrar um defeito para se tranquilizar de que não é só ela a imperfeita.
            Mas mulher alguma é sem ressalvas, uma vez que, se fosse, chata seria, sem graça seria, nada seria. E o fato de possuírem desvios é o que nos atrai ainda mais, é o que as torna humanas, semelhantes a nós, embora reverenciadas como a deusa premeditada, a alma intocável, o espírito apaixonante. É evidente, algumas são impiedosas e machucam os mais frágeis que confundem amor com a enganosa idéia de possessão infinita. Uma mulher nunca é de ninguém, caro leitor, e isso nos ajuda a desejá-la ainda mais, a buscá-la todos os dias.
            Agora, o maior e mais difícil dos mistérios humanos é entender o que pretende uma mulher. Ela não fala o que quer, e quando fala já não quer mais. Os hormônios à flor da pele, da tão rememorada e inesquecível TPM, fazem da mulher uma arma, que desafia e desperta nos homens o anseio inesgotável de traduzi-la. Quando do período das três letras – melhor não ousar pronunciar o significado –, os três, quatro ou cinco dias parecem durar a vida toda, uma vida de agressividade da qual eu, você e ela queremos nos livrar. A dita cuja sangra o homem, mas a fragilidade de estar exposta ao ímpeto desmedido faz da mulher uma vítima de si mesma. É recomendado, pois, evitar o confrontamento nesses dias, com sérios riscos de derrota para o lado masculino. Se isso der certo – e dará –, um carinho aqui, uma palavra amorosa ali são boas opções para resguardar o relacionamento e fortificar a felicidade.



           Por natureza, a mulher é egoísta. Experimente contrariá-la sobre algo já concretizado na sua cabeça. Ou é do jeito dela ou é bronca e braveza para dar e vender. Mas, pense: que mulher não fica mais linda quando está enfurecida? Não são raras as vezes que as provocamos para soltar delas uma sobrancelha contorcida, um olhar fulminante, os lábios falantes, excitantes, relutantes. E quando elas conversam? Todas falam, ninguém se ouve. O choro e o sorriso de uma mulher permeiam olhos e ouvidos. Não há quem passe impune por tamanhas reações. Sucumbir a essas e outras idiossincrasias faz parte de um romance e tanto.
            A contrapartida disso é a palavra reconfortante, a respiração leve, a mão que puxa nos momentos de maior dificuldade. A mulher tem a sensibilidade de ver ao que o homem não está apto, de sentir o que de nós passa distante, e a lucidez impera ao nos orientar sobre a melhor escolha. Mas a sensibilidade vira fragilidade quando, ao invés de uma mão sutil, o homem toca a face feminina com tapas e socos. Buscar justificativas para isso é atestar-se covarde. Quem tem uma mulher ao lado, seja você macho ou fêmea, tem maior chance de sobressair nos contextos mais pavorosos. Se não der, fique tranquilo: ela estará com você até o final, embora algumas exceções fujam a isso, por oportunismo, maledicência e comodismo. Nos descartam, nos trocam, nos traem, nos fazem morrer pela primeira vez.
            Não a uma, mas a todas as mulheres dedica-se a coluna de hoje. Ao perfume e ao sorriso femininos, que enobrecem a mulher e nos tornam mais confiantes por estarmos com elas de mãos dadas. À sensualidade e delicadeza que tomam de assalto o corpo de um homem ou de outra mulher. A você, mulher, que trabalha em casa, que trabalha fora, que trabalha lá e cá ou que trabalhou muito e agora descansa, aposentada. A você que briga com o marido, com o filho, com o namorado, com o genro, com o cunhado, com o irmão ou com a companheira do mesmo sexo, mas que no fundo os ama incondicionalmente. Ao beijo, à pele macia e à bondade que teimam em nos convencer daquilo que sabemos: de que você, mulher de todos os lugares e idades, é a herança mais humana, doce e bela que desabrochou nesta terra.

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