quarta-feira, 24 de outubro de 2012

LIMPE OS PÉS, NÃO FAÇA BARULHO... ESTAMOS TE ENGANANDO!

A tentativa de glamourizar as ações, tornar tudo muito respeitoso, inofensivo e bonito, como relatamos ontem, é o reflexo do que se passa nos nossos estádios, especialmente os mais novos construídos para a Copa de 2014. Como se não bastasse a higienização das arenas, fazendo com que todos os setores tenham acesso caro, o que inibirá a presença de todas as classes nos campos, os estádios públicos são financiados pelo dinheiro nosso, para depois serem entregues à iniciativa privada. É bem-vinda a mudança para melhor, com acomodações mais confortáveis e seguras, ao contrário do que o brasileiro enfrentava há alguns anos. Mas se for a um preço muito elevado para o bolso do protagonista de tudo isso, o torcedor, a validade será nula.

Naquilo que era o Maracanã (só se manteve a carcaça, tombada como patrimônio cultural) foram investidos, até agora, quase R$ 900 milhões. Até o fim do próximo ano, data prevista para o encerramento das obras, o custo deve ultrapassar a marca de R$ 1 bi. A reconstrução é financiada pelo povo, que não ficará com a gestão, pois o Estado, para desonerar os cofres dos gastos com manutenção, irá licitá-lo a empresários.


De acordo com o edital, o arrendamento vale por 35 anos, e o Estado cobrará da empresa vencedora o valor de R$ 7 milhões ao ano. A conta não bate. Serão 245 milhões de reais ao fim das três décadas e meia. Daqui a 35 anos, os cofres públicos terão recuperado pouco mais de 27% do que custeou. É um balde de mamão com açúcar para a iniciativa privada, que irá lucrar, no decorrer desses anos, com os eventos que promover ali: futebol, UFC, shows de música. Sem custo algum para reconstruir o local, a empresa que vencer o certame pegará tudo pronto. O mesmo acontece em todos os outros estádios, com exceção do Beira-Rio e da Arena da Baixada, não por acaso as duas obras mais atrasadas. Onde tem dinheiro público, a coisa anda, e bem. O estádio do Corinthians é uma exceção, mas repleto de irregularidades também.

Assim como na Europa, aqui no Brasil tem-se a ideia de que encarecendo o acesso, a violência diminui, como que dizendo “o culpado pelos confrontos entre torcidas, mortes de inocentes, é do pobre”. O problema da criminalidade, seja nos estádios ou em qualquer outro lugar, tem duas motivações: a falta de policiamento e a impunidade, a sensação de que nada acontecerá, mesmo que o delito seja imenso.

O problema de tanta pompa já é questionado pelo senso comum: investe-se dinheiro público em estádios, negligenciando educação, saúde, saneamento, segurança, moradia. É uma mentalidade batida, mas que faz sentido. O Brasil executa o caminho inverso, de propósito, porque bota dinheiro na mão de políticos e empresários: ao invés de investir no país, desenvolvê-lo e prepará-lo para a Copa, faz-se primeiro o mundial, e depois a gente vê se o país cresce.



A proposta de um grande evento vem acompanhada de um legado, aquilo iniciado na Copa ou Olimpíada que ficará à posteridade para uso e desenvolvimento social. Qual o legado da Arena Pantanal, por exemplo, erguida em Cuiabá? Um estádio para 40 mil pessoas numa região sem apelo ao futebol. Manaus, Natal e até Brasília estão na mesma situação. (Para entender o que poderá acontecer com as arenas depois da Copa, ver http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2012/10/24/quatro-dos-12-estadios-da-copa-devem-ser-elefantes-brancos-apos-torneio-diz-estudo.htm). Não haverá utilidade ao futebol, nem a um projeto social voltado ao esporte. Essas arenas irão se tornar o que se convencionou chamar de “elefantes brancos”, assim como algumas obras feitas para o Pan-2007, no Rio, que não servirão às Olimpíadas de 2016. O Estado botou dinheiro lá, gastou, enriqueceu alguém e... agora não servem. Façamos outras. É, sim, obrigação das prefeituras, governos estaduais e da União bancar a construção e ampliação do transporte público, melhoria de ruas e avenidas, aprimoramento de hospitais, do policiamento, dos aeroportos. Enfim, tudo o que ficará depois, e não irá embora junto à Copa.

Futebol está ficando chato, porque limpinho por todos os lados, silencioso por todos os lados, a um custo que nem todos os lados poderão pagar. O povo será excluído, e esse esporte, que abocanhou as mais diversas classes e culturas, corre o risco de meter os pés pelas mãos. O torcedor – o que conseguir pagar ingresso – voltará a usar terno, gravata e sapato para ver jogos in loco. O pobre, que também pagou pela elitização das arenas, só verá as disputas pela TV, talvez até num aparelho irretocável, mas sem a emoção da massa gritando GOL.

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