terça-feira, 9 de outubro de 2012

MAIS IDEIAS E MENOS SHOW

Tive a oportunidade de assistir a um trecho do debate entre o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney, candidatos à presidência dos Estados Unidos. O pleito norte-americano acontece em 20 de novembro. Tirando o fato de que Obama estava estranhamente desconfortável, o que favoreceu o adversário, mais incisivo, o confronto entre ambos serviu para escancarar ao Brasil que o nível das nossas eleições é raso. E é bem possível que a gente viva sob essa égide por mais algum tempo. Por aquelas bandas, o político encara a eleição com maturidade e seriedade, esclarecendo ao cidadão a real dimensão do contexto atual e daquilo que precisa ser feito.

Não que a lucidez e o tom civilizado devam ter presença integral ao longo de toda a campanha nos EUA, mas que a exceção à regra é o escândalo, a histeria, isso parece estar posto de modo bastante claro. Por lá, o que se viu foi uma discussão estritamente técnica, envolvendo temas como economia e saúde. Seria tolice da parte de Romney não apontar falhas nos quatro anos de mandato do seu oponente, mas tudo feito de modo educado e, o principal, oferecendo alternativas – viáveis ou não. Quem se interessar por acompanhar o debate completo da última semana entre os presidenciáveis americanos, sem legenda e dublagem, basta acessar http://www.youtube.com/watch?v=aYKKsRxhcro.

Aqui acontece o oposto. A despeito de algumas raridades, o candidato parte para a baixaria, às acusações pessoais, ou lança mão das frases de efeito, os clichês que acabam por tocar a carência e esperança do eleitorado mais órfão, mas que são desprovidos de consistência. Não é suficiente ao postulante a cargo político afirmar que “a população merece uma cidade melhor”, que “é hora da mudança”, que “juntos faremos uma sociedade melhor”. Eu ficaria perplexo se algum candidato pregasse o inverso disso. No país das maravilhas, a Alice sabe que tudo será feito, mas a forma como as benfeitorias serão viabilizadas é que é o cerne da discussão. Sobre as acusações, não adianta afirmar que o oponente é cretino, se o acusador não prova por A + B que é mais capacitado que ele.


Como a imprensa é responsável, na maior parte do tempo, por inserir na sociedade e na própria agenda dos candidatos a tônica da disputa, recai sobre o jornalismo o papel de exercer o seu trabalho com a frieza que pede a ocasião, sem vender uma neutralidade inexistente ou saltitar diante de picuinhas que não trarão benefícios ao pleito. Além de ter um lado, a imprensa brasileira é uma jovem atuante no processo eleitoral, porque o mesmo retornou há pouco mais de 20 anos, e isso faz dela incapaz em momentos pontuais da corrida. O nosso jornalismo, especialmente o mais robusto, ainda tropeça na vontade de fazer um bom trabalho e nos interesses escusos que perpassam as empresas midiáticas mais graúdas.

Além de canais de informação pouco maduros e políticos mal preparados – intencionalmente ou não – a outra ponta dessa equação é ocupada pelo próprio eleitor brasileiro, que ainda não possui bagagem suficiente para encarar um confronto mais maçante entre candidatos, onde se debatam problemas e soluções para as cidades. É muito mais agradável acompanhar troca de acusações ou uma aparição mais folclórica e humorada, do que se concentrar, informar-se e compreender uma discussão mais cirúrgica e propositiva. Embora o “Efeito Tiririca” tenha sido menos presente nessas eleições, há que se ter um eleitor menos alienado.

Enquanto a imprensa informa sobre este e aquele desvio do candidato, no passado ou no presente, enquanto a justiça se incumbe de punir quem se enquadra em crime eleitoral, civil ou penal, o cidadão olha para a disputa em Washington e percebe que Obama e Romney não teriam muita chance aqui. Porque, de um modo geral, o eleitor brasileiro entra na tendência avacalhada do nosso processo eleitoral, com frases bonitas e troca de animosidades gratuita, e se esquece de que é necessário aos postulantes discutir a cidade e suas carências. Ah, o votante se esquece também de que ele próprio precisa dialogar e tomar ciência sobre o lugar onde vive.

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